Wednesday, 21 November 2007

Rogério, o saxofonista.

Quando Rogério, o saxofonista e mentor dos Lisboa Jazz, sobe ao pequeno palco para auscultar o ambiente da sala, ouve alguns piropos e cumprimentos, provenientes de pessoas que começaram à uns meses atrás um novo ritual nas suas vidas citadinas – ir aos sábados à noite ouvir o sublime e suspirante som do saxofone do Inspector Rogério. Um homem que consegue passar a dor que vive permanentemente dentro de si para o saxofone e este sem contemplações, arrebatar violentamente quem o escuta e aflorar as lágrimas escondidas dos amantes do Jazz ao rebuscar no interior das suas almas, o sofrimento adormecido à força e que agora se liberta para se unir à dor dos escravos negros americanos. No final da noite, com o tabaco, o álcool e aqueles sons sagrados, regressam a casa. Regressam calados, ébrios e intoxicados pelo fumo do tabaco, mas mais vivos do que estavam depois de mais uma semana de trabalho.

Rogério senta-se no seu banco alto e as luzes do bar baixam de intensidade, funde o bocal do saxofone à sua boca e expele o primeiro sopro de vida. As notas ainda baixas são lamúrias que pedem silêncio e atenção, irrompem no ar cada vez mais rarefeito dizendo que não se poderá compreender o Jazz sem antes descobrir onde estão as suas profundas raízes. Por isso, o prólogo executado por Rogério é sempre um maravilhoso hino ao nascimento do Blues e do Jazz. Como uma criança, aquele saxofone conta por entre notas harmoniosamente unidas uma breve história do Jazz. É nesse instante que os copos gelados dos amantes se erguem. Levam um trago de álcool às gargantas secas, como se de um brinde aos negros africanos se tratasse. Uma singela e colectiva homenagem daquelas pessoas aos progenitores do Blues e do Jazz. É com este ambiente quase sagrado que Rogério vai improvisando os sons que acompanham o inicio da historia, enquanto os companheiros, já nos respectivos lugares, assistem arrebatados àquele prólogo harmonioso e sóbrio que lhes recorda o facto de ainda ninguém ter conseguido explicar qual o verdadeiro significado da palavra Jazz.

In Homicidios em Lisboa por Eric Lung

2 comments:

FM said...

estou a gostar desta...
continua.

MADRUGADA... said...

É por estes sublimes textos que tinha saudades de vir aqui.

Um grande abraço,
Eric.

P.S. mudei de endereço:http://bonafide1975.blogspot.com