Oficialmente, a música Jazz nasceu em 1895 nos Estados Unidos da América, mais precisamente
Ao contrário do que aconteceu nas colónias francesas, espanholas e portuguesas, na América, os escravos africanos foram proibidos de exteriorizar a sua cultura. Assim, proibidos de cantar e tocar, muitos aprenderam a tocar e cantar a música dos senhores brancos. Aprenderam a tocar piano para entreterem a população branca nos bailes. O exército contava com os tradicionais tocadores de pífaro negros e nas igrejas a sublime voz dos negros fazia-se ouvir para deleite de toda a comunidade, apesar do contra-senso – são escravos com vozes de anjos.
Apesar de toda a repressão, a tradição africana manteve-se viva nos meios rurais, pois enquanto trabalhavam, os negros, entoavam em inglês os seus cânticos tradicionais e nas igrejas, sentados nos humilhantes lugares destinados aos escravos, cantavam os salmos de um modo único e arrebatador. Rapidamente esse tipo de cântico religioso se apelidou de canções espirituais, a base para o género Gospel que haveria de nascer dali a cerca de duzentos anos. Nas festas que promoviam no seio da senzala cantavam músicas tradicionais, utilizando já algum do conhecimento musical que obtiveram com os senhores brancos, para puro divertimento da comunidade escrava, porque, apesar de oprimido, aquele povo nunca deixou de se divertir.
Foi graças a uma reforma na constituição americana que em 1720 os escravos foram obrigados a cantar e tocar música seguindo partituras musicais. O objectivo era manter os escravos no tempo, tom e contexto correctos. Apesar de alguma contestação, os escravos negros, acabaram por lucrar com essa reforma, pois foram abertas escolas nas igrejas, onde lhes foi ensinado a ler música e a tocar diversos instrumentos. Além disso ainda apareceram, especialmente no norte do país, coros profissionais e escolas de canto exclusivamente para negros. A população negra que não teve acesso a estas regalias, improvisou e aprendeu as músicas e as letras de ouvido, fazendo com que as celebrações religiosas se mostrassem cada vez mais espectaculares.
Rogério inclina ligeiramente o corpo para o seu companheiro pianista e este oferece-lhe alguns acordes mais vigorosos, o suficiente para ajudar o saxofone a subir o tom e como uma tempestade tropical sacudir a audiência enquanto o novo capítulo é tocado. Um som mais alegre, um som de esperança, pois tratava‑se de uma vitoria para os escravos afro‑americanos.
Em 1865, os negros americanos libertaram-se da escravatura a que haviam sido sujeitos durante centenas de anos. Sem demora tentaram acabar com os espectáculos grosseiros que existiam no país desde há 35 anos, nos quais músicos brancos se vestiam de negros e tocavam músicas típicas dos escravos. Mas essa incursão não teve sucesso devido ao racismo do povo branco e os ex-escravos não tiveram outro remédio que não retirarem-se para os guetos. A música negra viveu durante largos anos confinada a locais de menor importância, como as tabernas, bordeis e bandas de rua.
Agora o tom lamuriante do saxofone de Rogério atinge o seu auge, o baixista arranha a corda central de baixo para cima e de cima para baixo, levando um ranger de dor a toda a sala, um tremor que incomoda, assim com a historia da desilusão dos negros americanos os incomodou há pouco mais de um século.
Cansados e tristes por se encontrarem numa situação de caos social. Livres na constituição americana mas pobres e renegados para o patamar mais baixo da sociedade, os negros americanos encontraram uma nova forma de expressão musical. Canções com melodias arrebatadoramente tristes, nas quais expressavam toda a agonia de um povo que nunca deixou de ser a base da pirâmide daquela sociedade. Apesar de o Blues ter nascido em berço de vime, pela sua alma e beleza musical, cedo se percebeu que a sua fortuna seria certa.
In Homicidios em Lisboa por Eric Lung


