Saturday, 15 December 2007

As raizes.

Oficialmente, a música Jazz nasceu em 1895 nos Estados Unidos da América, mais precisamente em Nova Orleães. Filha de um relacionamento íntimo, mas forçado, entre a riqueza rítmica e quente dos escravos afro-americanos e do rigor matemático da música europeia que corria nas veias dos brancos americanos, todos eles com raízes familiares na Europa. Temos que recuar até às últimas décadas do século XVI, altura em que os negros africanos começaram a ser comercializados no Mundo Novo depois de arrancados à força do seu continente, para encontrarmos as suas raízes. Os escravos eram vendidos a homens brancos por comerciantes indígenas, que por sua vez os embarcavam para o Novo Mundo e os vendiam às famílias brancas. Mas ao venderem os homens e as mulheres negras, aqueles comerciantes estavam também a vender a valiosa cultura africana, onde a música detinha especial destaque na expressão cultural desses povos.

Ao contrário do que aconteceu nas colónias francesas, espanholas e portuguesas, na América, os escravos africanos foram proibidos de exteriorizar a sua cultura. Assim, proibidos de cantar e tocar, muitos aprenderam a tocar e cantar a música dos senhores brancos. Aprenderam a tocar piano para entreterem a população branca nos bailes. O exército contava com os tradicionais tocadores de pífaro negros e nas igrejas a sublime voz dos negros fazia-se ouvir para deleite de toda a comunidade, apesar do contra-senso – são escravos com vozes de anjos.

Apesar de toda a repressão, a tradição africana manteve-se viva nos meios rurais, pois enquanto trabalhavam, os negros, entoavam em inglês os seus cânticos tradicionais e nas igrejas, sentados nos humilhantes lugares destinados aos escravos, cantavam os salmos de um modo único e arrebatador. Rapidamente esse tipo de cântico religioso se apelidou de canções espirituais, a base para o género Gospel que haveria de nascer dali a cerca de duzentos anos. Nas festas que promoviam no seio da senzala cantavam músicas tradicionais, utilizando já algum do conhecimento musical que obtiveram com os senhores brancos, para puro divertimento da comunidade escrava, porque, apesar de oprimido, aquele povo nunca deixou de se divertir.

Foi graças a uma reforma na constituição americana que em 1720 os escravos foram obrigados a cantar e tocar música seguindo partituras musicais. O objectivo era manter os escravos no tempo, tom e contexto correctos. Apesar de alguma contestação, os escravos negros, acabaram por lucrar com essa reforma, pois foram abertas escolas nas igrejas, onde lhes foi ensinado a ler música e a tocar diversos instrumentos. Além disso ainda apareceram, especialmente no norte do país, coros profissionais e escolas de canto exclusivamente para negros. A população negra que não teve acesso a estas regalias, improvisou e aprendeu as músicas e as letras de ouvido, fazendo com que as celebrações religiosas se mostrassem cada vez mais espectaculares.

Rogério inclina ligeiramente o corpo para o seu companheiro pianista e este oferece-lhe alguns acordes mais vigorosos, o suficiente para ajudar o saxofone a subir o tom e como uma tempestade tropical sacudir a audiência enquanto o novo capítulo é tocado. Um som mais alegre, um som de esperança, pois tratava‑se de uma vitoria para os escravos afro‑americanos.

Em 1865, os negros americanos libertaram-se da escravatura a que haviam sido sujeitos durante centenas de anos. Sem demora tentaram acabar com os espectáculos grosseiros que existiam no país desde há 35 anos, nos quais músicos brancos se vestiam de negros e tocavam músicas típicas dos escravos. Mas essa incursão não teve sucesso devido ao racismo do povo branco e os ex-escravos não tiveram outro remédio que não retirarem-se para os guetos. A música negra viveu durante largos anos confinada a locais de menor importância, como as tabernas, bordeis e bandas de rua.

Agora o tom lamuriante do saxofone de Rogério atinge o seu auge, o baixista arranha a corda central de baixo para cima e de cima para baixo, levando um ranger de dor a toda a sala, um tremor que incomoda, assim com a historia da desilusão dos negros americanos os incomodou há pouco mais de um século.

Cansados e tristes por se encontrarem numa situação de caos social. Livres na constituição americana mas pobres e renegados para o patamar mais baixo da sociedade, os negros americanos encontraram uma nova forma de expressão musical. Canções com melodias arrebatadoramente tristes, nas quais expressavam toda a agonia de um povo que nunca deixou de ser a base da pirâmide daquela sociedade. Apesar de o Blues ter nascido em berço de vime, pela sua alma e beleza musical, cedo se percebeu que a sua fortuna seria certa.

In Homicidios em Lisboa por Eric Lung

Wednesday, 21 November 2007

Rogério, o saxofonista.

Quando Rogério, o saxofonista e mentor dos Lisboa Jazz, sobe ao pequeno palco para auscultar o ambiente da sala, ouve alguns piropos e cumprimentos, provenientes de pessoas que começaram à uns meses atrás um novo ritual nas suas vidas citadinas – ir aos sábados à noite ouvir o sublime e suspirante som do saxofone do Inspector Rogério. Um homem que consegue passar a dor que vive permanentemente dentro de si para o saxofone e este sem contemplações, arrebatar violentamente quem o escuta e aflorar as lágrimas escondidas dos amantes do Jazz ao rebuscar no interior das suas almas, o sofrimento adormecido à força e que agora se liberta para se unir à dor dos escravos negros americanos. No final da noite, com o tabaco, o álcool e aqueles sons sagrados, regressam a casa. Regressam calados, ébrios e intoxicados pelo fumo do tabaco, mas mais vivos do que estavam depois de mais uma semana de trabalho.

Rogério senta-se no seu banco alto e as luzes do bar baixam de intensidade, funde o bocal do saxofone à sua boca e expele o primeiro sopro de vida. As notas ainda baixas são lamúrias que pedem silêncio e atenção, irrompem no ar cada vez mais rarefeito dizendo que não se poderá compreender o Jazz sem antes descobrir onde estão as suas profundas raízes. Por isso, o prólogo executado por Rogério é sempre um maravilhoso hino ao nascimento do Blues e do Jazz. Como uma criança, aquele saxofone conta por entre notas harmoniosamente unidas uma breve história do Jazz. É nesse instante que os copos gelados dos amantes se erguem. Levam um trago de álcool às gargantas secas, como se de um brinde aos negros africanos se tratasse. Uma singela e colectiva homenagem daquelas pessoas aos progenitores do Blues e do Jazz. É com este ambiente quase sagrado que Rogério vai improvisando os sons que acompanham o inicio da historia, enquanto os companheiros, já nos respectivos lugares, assistem arrebatados àquele prólogo harmonioso e sóbrio que lhes recorda o facto de ainda ninguém ter conseguido explicar qual o verdadeiro significado da palavra Jazz.

In Homicidios em Lisboa por Eric Lung

Sunday, 9 September 2007

Cena 1

Noite de Sábado, dia 7 de Outubro de 2006.

No Bart Tatum, paira uma espessa névoa azul clara sobre todo aquele amontoado de amantes de Jazz, que aguardam ansiosos por mais um concerto do trio Lisboa Jazz, enquanto fumam cigarro atrás de cigarro e degustam os Whiskeys ou os Gins, simples, com gelo, com água tónica ou Coca-Cola, tanto faz, desde que seja Whiskey ou Gin. Como na música afro americana, seja ela Blues ou Jazz, o que interessa é que seja. É para isso que eles ali estão, para a escutar, é por isso que eles vieram esta noite, para a sentir, é por ela que muitos deles ainda estão apaixonados, tão apaixonados como no primeiro dia que ouviram o Blues ou o Jazz, a Bessie Smith ou o Louis Armstrong.

E por isso aguardam murmurando comentários sobre a banda residente das noites de sábado. Comentam o virtuosismo do jovem pianista negro que estuda no Conservatório de Lisboa e se dedica ao Jazz por amor a Art Tatum. O qual imita sem complexos e quando a rapidez de interpretação não é a suficiente, sorri, e embrulha todo aquele som, numa capa mágica de improvisação, lembrando a todo aqueles que o escutam de olhos semicerrados mas certamente com o coração aos pulos de emoção, que antes de mais, o Homem do Jazz é um improvisador por excelência. Essa é a matriz da música afro americana – todo o jazzista é um compositor.

Também virtuoso é o baixista da banda. Um quarentão auto ditada que, por a banda não ter baterista, assume a responsabilidade de marcar o tempo das músicas que interpretam. Mas aquele baixo, comentam os clientes com um sorriso malicioso, é um como um bígamo. Porque, além de não abdicar do seu papel principal que é marcar o tempo da música, ainda tem energia suficiente para se intrometer entre o piano e o Saxofone, afim de ser ele a marcar o ritmo. Deixando a harmonia exclusivamente com o piano e a melodia com o saxofone. Isto, quando as músicas estão no inicio e a improvisação ainda não desabrochou, porque na realidade o que acontece depois, quando os olhos já estão fechados, numa clara busca interior, e a improvisação toma conta da noite, é o saxofone e o piano que mais se expõem ao público. São aqueles dois instrumentistas que mais se dão, que mais confessam aquilo que são, aquilo que sentem. As dores, as tormentas, as agruras da vida que teimosamente os persegue. A dor do fado que acompanha estes interpretes portugueses de Blues e Jazz, todas os sábados à noite no Tatum Bar, no Cais do Sodré.

continua?

In Homicidios em Lisboa por Eric Lung

Art Tatum: